O nascimento do meu primeiro filho

Há 9 meses atrás eu ia entrar em trabalho de parto no dia seguinte, e não sabia.

Porque respeitar a fisiologia do parto também é esta difícil parte de entregar o controlo e deixar acontecer. É romântico, mas é muito difícil. Mais ainda se tendencialmente formos pessoas controladoras.

Eu sou. Muito! Então não saber QUANDO iria entrar em trabalho de parto (TP) nem COMO seria o processo, stressava-me. O facto de nesta data já ter passado as 40 semanas e sentir o tic-tac da indução a aproximar-se, angustiava-me.

Mas até este dia, a minha vontade inconsciente ia alternando: havia dias em que queria muito conhecer o meu bebé; outros em que só queria que o tempo parasse porque não me sentia capaz e outros em que tinha zero vontade de ser mãe (boa altura pra me arrepender 😜)

Depois só queria que me dissessem o que era uma contração, o que se sentia, como é que eu ia saber?! E ninguém me sabia responder – só conceitos muito teóricos e dificeis de compreender para quem nunca sentiu. ⚠️GRÁVIDAS, vou partilhar convosco estes mesmos conceitos ! Não me detestem.. para quem não passou pelo processo percebo que sejam difíceis de concretizar. Mas é informação importante de ter – ainda que vaga! ⚠️

Mas naquele dia – há 9 meses atrás- tudo foi diferente.

Acordei numa depressão grande. Sentia-me triste, pesada, muito cansada. Não quis ver ninguém, não quis falar com ninguém. Sentia uma angústia sem motivo, e uma ansiedade imensa. Fui caminhar, como habitualmente, junto à praia.

E nesse dia, o meu corpo exigiu-me água – era julho, mas não estava assim tanto calor! Mas entrei no mar, e nesse momento a rendição foi total. O meu corpo chorou, muito, tudo o que tinha. E foi o meu corpo , não fui eu! Porque eu não tinha motivos para chorar. Mas o corpo tinha – já sabia que estava no fim – e quis chorar muito. E no fim de tanto chorar, pela primeira vez em toda a gravidez senti uma conexão real com o meu filho e disse-lhe “Vem meu filho, por favor. Já estás pronto. Nós também já temos tudo pronto. Não tenhas medo, podes vir”.

Há 9 meses atrás já estava em TP e não sabia 🤍

eram 6h da manhã de dia 4 quando acordei, com uma vontade muito estranha de fazer xixi.

Já no wc reparo que estou a perder algum sangue, com consistência estranha. Imaginei que fosse o rolhão mucoso, mas parecia mais sangue do que o que imaginava que seria “normal”.

Quando me levanto, uma leve moinha no fundo da barriga. Será?

Volto para a cama. E envio mensagem à @enfermeira_parteira_isabel. Enquanto aguardo a resposta rezo: “por favor que não me diga para ir para as urgências”.

Sempre desejei entrar em TP espontâneo e aguardar em casa o máximo de tempo possível antes de ir para o hospital. A @enfermeira_parteira_isabel era o nosso backup para o período em casa.

A mensagem veio rápido. Tranquilizadora mas com um “é melhor passar aí”.

Pouco tempo depois a Isabel chega a nossa casa, examina-me e deixa-nos com algumas orientações:
– estás com 3 cm de dilatação
– está tudo bem
– está a começar. Tanto pode ser hoje como não
– caminha, descansa, come e está tranquila. Acima de tudo descansa. Não sabes de quanta força vais precisar.

E termina com: ainda vamos ter um bebé esta madrugada!

Cancelamos os planos para o dia. Combinamos não avisar ninguém (excepto a minha mãe) e saímos para caminhar junto à praia.

Aí a moinha já se tinha transformado em contração real. Uma espécie de dor de período no fundo da barriga. Que ia e vinha, sem grande ritmo, e perfeitamente tolerável.

Caminhamos, conversámos , tomámos o pequeno almoço na esplanada, constatámos que a vida estava a horas de mudar para sempre.

Era perto das 10h da manhã, as pessoas começavam a chegar à praia. E de repente o animal começou a tomar conta.

“Vamos já para casa”. E dentro de mim uma ânsia, um medo, uma vontade inexplicável de voltar à toca. Tudo me começou a incomodar: as vozes das pessoas, o sol na pele, os carros na rua,… Perdi a vontade de falar e só queria estar em casa, no meu canto.

O meu corpo pedia-me que recolhesse, que procurasse um ambiente seguro, para que ele pudesse fazer o seu trabalho 🤍

Em casa comi e comecei a cronometrar as contrações. Parecia que estavam a ganhar ritmo.

Decidimos dormir.
Acordo passado umas horas e as contrações tinham desaparecido!

quando já pensava tinha sido falso alarme, são 14h e tudo recomeça.

agora sim, não restavam duvidas. Estava em TP.

Fui mantendo contacto com a @enfermeira_parteira_isabel e seguindo algumas recomendações: descansar, comer, hidratar, caminhar, subir escadas.

Dei várias voltas ao quarteirão, subi e desci várias vezes as escadas do prédio.

Recebi a minha mãe, tratamos das últimas logísticas. Abraçamo-nos muito. Ouvi a história do meu parto que conheço desde sempre. E recebi aquela força que agora sei ser possível passar de mulher para mulher.

A intensidade das contrações aumentava, assim como a sua frequência. Várias vezes a app das contrações me mandou para o hospital. Para logo a seguir voltar a perder o ritmo.

Comecei a ficar ansiosa com a viagem. Tinha 20/30 min de caminho até ao hospital. A dor era bastante tolerável, e os períodos de descanso suficientes. Mas e se deixava de ser de um momento para o outro?

Pelas 20h a Isabel diz-me que ainda acha cedo eu ir para o hospital. Mas que se fosse para ficar em casa com medo, era melhor ir.

Aconselhou-nos a ir até à Povoa do Varzim, dar um passeio, jantar por lá! (Só a Isabel para sugerir ir a um restaurante em TP 😅)

No caminho, o por do sol mais lindo que já vi na minha vida a acompanhar-nos. A maravilha do banho de ocitocina em que estava 🧡

Conversávamos sobre o que estava para vir. Como é importante estarmos o máximo de tempo possível resguardados neste ambiente familiar e de amor para deixar o corpo fazer o seu trabalho.

Chegamos à Póvoa e assim que saio do carro tenho a contração mais forte até ali. Tirou-me as forças e levou-me ao chão. Até aquele momento era só dor. A partir dali com a dor vinha o pedido do corpo por posições curvadas e agachadas.

Na rua, um frio e uma ventania desconfortáveis. Atravessámos a rua em direção à praia, mais uma contração e soubemos: é melhor dar entrada.

Entrei no CHPVVC (@nascer_em_familia) seriam perto das 22h.

Porta-contração- recepção- “olá boa noite acho que estou em” – contração – “trabalho de parto”

“Está no melhor sítio para parir. Vai ser maravilhoso e correr tudo bem” – diz-me uma desconhecida na sala de espera.

Lembro-me de serem muito rápidos na triagem. Lembro-me de serem muito carinhosos no caminho até à urgência. E muito pacientes também… porque parei várias vezes com contrações e resisti à cadeira de rodas. Lembro-me da menina que me acompanhou me dizer que ainda bem que estava ali. Porque ela tinha tido o filho dela no Brasil e a experiência tinha sido muito traumática.

Lembro-me de me examinarem e de dizerem que estava com 5cm de dilatação. E que iria ter um bebé de aproximadamente 3,5 kg (a bola de cristal não estava muito boa naquele dia).

Lembro-me de preencher papelada , responder a umas perguntas, entrar para um quarto e pensar “vai ser aqui”.

Lembro-me do meu marido chegar. De fazermos ambos o teste do covid. De nos rirmos com as enfermeiras, de fazer um ctg (“só até quando quiser”)e do sorriso nos olhos da enf. Rosa.

Depois disso entrei na partolândia. Porque não me lembro de muito mais.

Sei que a dor estava intensa, mas o descanso era suficiente.

Sei que a enf. Rosa sugeriu que fosse até ao chuveiro – e de ter achado boa ideia porque tinha lido sobre os benefícios da água no parto.

Lembro-me de estar no chuveiro e pensar “mas que merda é esta que o meu corpo está a fazer como raio é possivel?”

Sei que voltei para o quarto. E no meio de tudo isto passaria pouco da 00.00. E nessa altura tudo mudou.

Quis morrer. Quis desistir. Disse que não ia aguentar mais. Perguntei se me podiam dizer se ainda ia demorar muito. “Isso eu não sei”.

“Posso examinar para termos +- uma noção”. Não quis. Não ia suportar saber se ainda estivesse longe do fim.

A bolsa de água rebentou. O meu corpo cedeu e cai no chão com a certeza que mais uma contração e iria morrer. Vomitei.

Senti-me desistir. Disse que ia desistir. E lembro-me do olhar terno da enfermeira a dizer-me “podes sempre desistir. Mas eu acho que não vais”.

E naquele momento todos os posts de instagram que li durante a gravidez fizeram pop up na minha cabeça. É a única memória nitida que tenho da partolândia. Se queres desistir e achas que vais morrer, estás na fase de transição.

O expulsivo está prestes a começar.

Sei que ainda demoraram uns minutos entre me perguntarem “já sentes vontade de puxar?” – e eu responder que não e ficar com muito medo porque sabia que isso significava que ainda não estava lá – e sentir o meu corpo a fazer um puxo descontrolado.

Não fui eu que puxei. Eu nunca puxei. O meu corpo contraiu e fez-me puxar. E era automático, mecânico e impossível de controlar.

Nesse momento já não me doia. O que era um alívio. Mas o esforço fisico que o corpo tinha que fazer de cada vez que puxava era sobrenatural.

No quarto ao lado estava outra mulher em TP. Tinhamos as contrações bem sicronizadas. Quando uma puxava a outra descansava. Para mim era óptimo porque ajudava-me a preparar para a fase seguinte.

Entretanto o bebé dela nasceu e fiquei feliz. Era sinal que tudo aquilo estava a acontecer para no fim ter um bebé. Às vezes convém relembrar 🤣

Lembro-me de me sentir frustrada por sentir que estava a demorar muito. Achava que o período expulsivo seria super rapido.

O expulsivo foi menos doloroso. Mas claramente mais desafiante. Foi pior, mas não tinha vontade de desistir. Era uma sensação do tipo agora que aqui estás, já não há nada a fazer.

Estive sempre de quatro apoios no chão. Em completo transe.

O meu corpo a certa altura pediu-me que me pusesse de cócoras. Mas o meu cérebro disse “tem juizo. Que não tens preparação física para aguentar”. Mas sabia que se o corpo pede, tenho que obedecer. Mas não conseguia e tinha medo que pedir ajuda me desconcentrasse. E tinha chegado até ali. Não me podia desconcentrar. Fui fazendo algumas básculas para compensar.

Lembro-me do meu marido dizer que ja se via o cabelinho. E da enf. Rosa sugerir que sentisse com a minha mão. Mais uma vez tive receio da desconcentração e não o fiz.

Senti o circulo de fogo. Senti-me muito exausta. Senti que aquilo nunca ia acabar e que ia parir para sempre. E de um segundo para o outro tudo passou.

O meu filho nasceu. Não o vi porque estava de 4 apoios.

Tinha 1 circular de cordão no pescoço e muito mecónio. Tiveram por isso que o aspirar antes de mo entregarem. Pelo meconio. Não pela circular.

Não chorou e isso assustou o meu marido.

A mim não porque eu sabia que nem todos os bebés choram quando nascem. Disseram-me que estava tudo bem e isso bastou-me.

Assim que foi possível deitei-me e entregaram-me o bebé. Estava preso a mim ainda pelo cordão.

A primeira sensação ao pegar nele foi achar que era muito pesado. A segunda foi o cheiro + incrível que alguma vez ja senti.

Eram 2h49. Fiquei espantada. Na minha ideia seriam ja 9h da manhã.

Tive-o na minha pele algum tempo. Conhecemo-nos. Cortei o cordão passado uns minutos.

Antes ou depois (

não me lembro) senti outra contração e pensei “não me digas q ainda não acabou 😫”. Mas era a placenta.

Fui para a cama. Vi todos a limparem o quarto. Bela bodega que ali ficou.

Coseram-me. Laceração natural, 4 pontos. E levaram o meu filho para medir e pesar. 52cm e 4,270kg

Mostraram-nos a placenta e explicaram como funcionava, enquanto punha o meu filho na mama e o alimentava pela primeira vez.

Estava em êxtase. Em transe. E com energia para tudo. O meu corpo tremia muito e não sentia os músculos. Mas pouco de 1hora depois fui sozinha ao wc. Voltei e comi toda a comida que tínhamos levado para o internamento.

Foi a experiência mais incrível de toda a minha vida 🤍

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